16/09/2009

CAZZO ENTREVISTA LISIANE BRAGA

Eis que surge o sorriso mais escancarado do IAPI e adjacências. Ou não. Sabe-se: Lisiane Braga é do mundo. A sorrir leva a vida e abraça a flor, a tartaruga, o periquito, o papagaio, a árvore [nem tão Serguei assim]... e porque não consegue ficar parada, prefere partir pra cima, ou pra debaixo d’água [não resiste a mergulhos]. Convicta, apaixonada, diz que largaria tudo pela salvação do planeta.

Lisiane, magra, desvia da chuva e anda cansada de tanto desviar de lixo, coisa comum em nossas ruas. Mãos na massa, funda o Instituto RAM [Instituto de Reeducação Ambiental], ONG que vem dando seus primeiros passos, como uma tentativa concreta [concretista, segundo a mesma se define] de mudar a realidade, seja na terra [haja lixo], seja no mato, seja no mar.

Das mais entusiasmadas divulgadoras do Clean Up Day, que será realizado cá por essas bandas, do lado de lá do Porto da Barra, dia 19, a partir das 8h, Lisiane nesse dia fará apenas o que faz sempre que tenta passear por nossas praias: sem sossego, cata o lixo da areia, tira o lixo do mar.

Tocada desde menina, ainda em Santo Estevão, Lisiane entoa essa toada, além de rocks e canções de amor, e luta na sua incansável busca de tornar o meio ambiente um lugar mais decente de se viver.



Cazzo – Quem foi que te ensinou isso de querer salvar o planeta? De onde é que veio essa mania de abraçar árvore, cuidar dos bichos, como começou?

Lisiane – Desde muito nova, eu me lembro... a minha infância, lá em Santo Estevão, eu ficava mexendo no jardim de casa, procurando bichinho, subindo em árvore, sei lá, se esse negócio de reencarnação existe acho que vem de antes, porque, é sério, eu tenho essa afinidade por natureza desde que eu me entendo por gente. Eu assistia assiduamente o Globo Ecologia...

Cazzo – É mesmo? Eu detesto aquilo...

Lisiane – É, mas eu adorava. Inclusive um tio meu viu uma filmagem minha fazendo um programa de meio ambiente, eu devia ter, sei lá, uns 11 anos de idade...

Cazzo – Hahahahaha...

Lisiane – Ele é falecido já, mas deu muita risada, e era meu fã...

Cazzo – E com o tempo, como foi? Você foi se aproximando de alguma entidade, de alguns movimentos ambientalistas?

Lisiane – Eu morei em Santo Estevão até os 14 anos, vim pra Salvador e comecei a me interessar e realmente me envolver com isso, com o meio ambiente de uma forma mais forte, intensa. Procurei algumas organizações pra ser voluntária, cheguei a ser voluntária do Grupo Ambientalista da Bahia, o GAMBÁ, por um ano, por aí, depois o GREENPEACE, mais recente, na verdade, em 2006, quando navio deles veio pra cá... só que, no fim das contas, eu queria fazer coisas que fossem além do que um voluntário pode fazer, porque o papel do voluntário é apoiar coisas que já existem e, no máximo, sugerir aquilo que nem sempre acaba sendo realizado. Então, comecei a pensar em ter uma Organização, fundar uma Organização, daí que vem o RAM – Instituto de Reeducação Ambiental, que vem com a proposta de mudar atitudes em prol do meio ambiente, porque eu vi que não havia nenhuma campanha que fosse suficientemente forte que conseguisse mudar as cabeças das pessoas, fazê-las enxergar que o planeta tem que ser cuidado por todo mundo.

Cazzo – Voltando um pouco: em casa, na infância, como era essa coisa meio Serguei... trepando com as árvores...

Lisiane – Hahahahahahahahahahahaha...

Cazzo – Não, na verdade, você trepa nas árvores, né?

Lisiane – Nas árvores, não com as árvores...

Cazzo – Você sabe que o Serguei trepa com as árvores, né?

Lisiane – Hahahahahahaha... o Serguei é louco... hahahahahahahahahaha...

Cazzo – Como era em casa, sua mãe, seu pai?

Lisiane – É engraçado, porque meu pai foi uma das minhas inspirações, porém ele é uma pessoa que os ambientalistas considerariam como sendo do “lado negro da força”. Porque ele tem fazenda, cria gado, e eu sou vegetariana... assim, vou muito pra o outro lado, mas ao mesmo tempo esse contato com os bichos veio muito dele, tomar leite da vaca de manhã cedo, acordava 5 da manhã, ele me levava pra o curral, pra tomar leite ali na hora, ele achava uns sapinhos, que a gente chamava de caçote, q eram mini-sapinhos, que ele me dava na mão, montar a cavalo que eu monto desde sempre, então eu acabei criando uma relação muito próxima com os bichos por causa de meu pai.

Cazzo – Mas, e quando você começou a partir pra o lado mais extremo da força, como é que foi?

Lisiane – Minha mãe se preocupa mais, ela tem pavor a água e eu sou louca por mergulho, adoro mergulhar. Ela sempre viu o GREENPEACE como sendo aqueles extremistas que salvam baleia no meio do oceano, essas coisas todas, e ela acha que eu vou acabar fazendo isso. Não que eu não tenha tentado, quando o navio deles veio, mas não deu... mas, assim, eu largaria tudo, a qualquer momento, pra fazer esse tipo de atividade porque é o que eu gosto, acredito nisso, nos resultados.

Cazzo – Quanto a questão da sujeira, eu acho Salvador uma cidade fantástica, tem uma coisa que eu pergunto sempre a quem vem de fora – e nem precisa ser muito de fora assim, pode ser no quintal da gente aqui, em Sergipe – é o seguinte: “lá em sua cidade o poste é cesta de lixo?” Porque aqui é impressionante, o poste é cesta de lixo e a gente acha normal. Eu queria saber de você que medidas drásticas deveriam ser tomadas? Como você vê a questão da sujeira em Salvador?

Lisiane – É impressionante, porque eu já conheci várias capitais do Brasil e Salvador, infelizmente – digo isso com muito pesar –, é a cidade mais suja que já conheci na minha vida. Adoro Salvador, adoro o povo daqui, só que é triste demais, é muito suja, muito mal cuidada. Eu acredito muito na reeducação ambiental (não é à toa que eu abracei a causa), acho que deveria haver campanha, mas não só campanha porque não adianta nada se não temos quantidade suficiente de lixeiras nas ruas. Mas acho que podemos incentivar as pessoas a reciclarem o lixo, a reciclagem simples mesmo, coleta simples em casa. Só que vamos para o outro lado: tem coleta seletiva em Salvador inteira? Não tem.

Cazzo – Mas e que medidas deveriam ser tomadas?

Lisiane – Então, acho que deveria haver uma campanha partindo do Governo mesmo, pra sensibilizar as pessoas a mudarem o hábito, mas, ao mesmo tempo existir uma logística de coleta muito melhor.

Cazzo – Você acha que o Estado é capaz de ter esse compromisso ou isso tem de partir da sociedade civil?

Lisiane – Os dois lados devem estar intimamente ligados. É um problema de saúde pública, inclusive. Mas acredito na força do Estado no sentido de que eles detém um poder financeiro que é maior do que o de qualquer organização. Claro que nós, do RAM, podemos fazer um trabalho de conscientização, sim, mas não temos verba para uma campanha extensa, com TV e outros meios de comunicação. isso o governo poderia fazer tranquilamente, até porque tem uma verba específica, que vai para a publicidade. Acho que as pessoas iriam aprovar campanhas positivas como “Não jogue lixo na rua ou pela janela do ônibus”.
"Se eu sempre protegia os animais, e isso vem desde pequena, como que eu podia aceitar que se matasse um bicho para a minha alimentação? Então, quando eu percebi isso, vi que eu estava errada, eu tava sendo hipócrita."

Cazzo – Eu ia falar disso agora...

Lisiane – Mas é uma mania, é comum, é impressionante...

Cazzo – Você reage quando vê isso?

Lisiane – Eu reajo. Outro dia, no ônibus, uma menina tava abrindo um pacote de jujuba e a parte maior do plástico ela jogou pela janela, só que o vento trouxe de volta e ela foi pra jogar de novo. Daí eu peguei primeiro e falei: “Pode deixar que seguro, pra levar lá fora, pra jogar numa lixeira.” Algo como “Se toque”. Depois disso, ela começou a juntar os pedacinhos de plástico na mão...

Cazzo – A pessoa fica constrangida, né?

Lisiane – Fica constrangida. E é o que eu falo sempre nas palestras, que quando vir isso acontecendo, alguém pega uma lata e joga no chão, cata a lata, entrega à pessoa e diz: “Olha, você deixou cair.” Não tem coisa pra deixar a pessoa mais constrangida. As pessoas sabem que é errado, mas é preciso lembrar a elas.
"Eu não sou contra a publicidade em instituições públicas porque é necessário se manter uma imagem positiva para que as pessoas se convençam, para que se consiga uma adesão aos seus projetos, eu sou publicitária e sei que é importante. Mas as pessoas teriam uma simpatia muito maior pelo governo se eles abraçassem causas voltadas à cidadania, à luta pelo meio ambiente, que são coisas óbvias. Mas vejo que hoje existe uma necessidade de dizer o óbvio."

Cazzo – Mas voltando ao papel do Estado, com todos esses avisos de ambientalistas, cientistas etc, você vê os Estados Nacionais comprometidos com a sobrevivência do planeta?

Lisiane – É uma questão de sobrevivência. No final do ano haverá uma convenção chamada Cop15, em Conpenhage, onde representantes de diversos países estarão buscando soluções mais drásticas contra os efeitos do aquecimento global, na busca de soluções mais viáveis e mais urgentes. Porque o derretimento do gelo das calotas polares que esperávamos que se intensificassem lá pra 2040, 2050, já está previsto pra 2012. Em 2007, o gelo que derreteu foi equivalente ao que derreteu em 6 anos anteriores. Uma aceleração que não era prevista. E isso vai afetar cidades litorâneas principalmente. Há muito tempo não é mais conversa de ambientalista, que, aliás, é uma expressão que eu não gosto muito.

Cazzo – Por que?

Lisiane – Eu tenho texto em que falo sobre isso, porque eu acho que todo “ista” é também “burrista” [hahahahahaha], aí eu falo que no máximo eu era “sonhista” e agora sou “concretista”.

Cazzo – É porque restringe, não é?

Lisiane – Restringe, as pessoas são tachadas...

Cazzo – Porque quando se diz que tal sujeito é ambientalista dá a impressão de que a responsabilidade sobre as coisas do meio ambiente está toda nas mãos dele. A diferença é que ele tem uma fundamentação maior, está ali como um agente multiplicador.

Lisiane – Eu, às vezes, sofro discriminação porque acham que ambientalistas deveriam ser só os biólogos ou pessoas desta área. Eu sou publicitária. Mas o trabalho do RAM é com campanhas voltadas à comunicação, uma sensibilização que venha pela comunicação. mas não creio mesmo que a fundamentação esteja apenas nas mãos de biólogos e gestores ambientais. É um papel de todos, que deveria ser abraçado por todos.

Cazzo – Ma essa mudança de hábito pode fazer com que haja uma mudança no sistema econômico. Você acha que essa mudança de hábito pode causar nova distribuição de renda? Você acha que isso pode ser um agente transformador para uma justiça social?

Lisiane – Acaba sendo porque assim que se geram, por exemplo, cooperativas de reciclagem, criou-se um outro mercado de trabalho, o TNT [tecido não-tecido]... acaba dando mais oportunidade sim. Fora que tem a questão empresarial que é vender a imagem de uma empresa ecologicamente correta.
"Quando alguém me questiona quanto a necessidade de se cuidar do meio ambiente, enquanto tem gente morrendo de fome – como se não tivesse a ver uma coisa com a outra –, eu pergunto: Você se alimenta? Bebe água? Respira? A partir do momento que você faz essas três coisas, é preciso cuidar do meio ambiente, sim."

Cazzo – Pra que se preserve a vida é preciso negar o capitalismo?

Lisiane – Eu não acredito muito nisso. Não vejo a possibilidade de deixar o capitalismo de lado. Não acredito em socialismo. Acredito em uma distribuição mais justa. Porque ninguém vai abrir mão do que tem por conta de nada... a gente tenta mudar coisas pequenas e não consegue, imagina se as pessoas vão deixar de ganhar a quantia que elas ganham...

Cazzo – Mas com isso sua ação se torna restrita porque um trabalho que poderia ser mais amplo é emperrado por conta da força que tem o sistema capitalista. Você não acha que seu trabalho acaba se tornando um paliativo apenas?

Lisiane – Até pode ser. Olhando por esse lado, poder ser. Mas acredito que podemos conseguir um equilíbrio em relação a isso. Não se produz a quantidade de carne que se consome. Muitos alimentos são descartáveis no fim das contas. O que é danoso é esse excesso. Eu não condeno quem come carne, até porque eu já comi um dia.

Cazzo – Até que idade você comeu carne?

Lisiane – Até os 18. Hoje eu tenho 31.

Cazzo – Mas você não come carne por respeito aos animais, por não achar justo comer um outro animal ou por causa da forma como o animal é tratado?

Lisiane – As duas coisas. É uma coisa agressiva matar um peixe por asfixia, matar um boi, um porco, eles sentem, eles tem reação, o que denota que eles tem emoção. Eu acredito que os animais sentem tanta dor quanto nós.

Cazzo – Você quando vai no mercado você fica olhando do que foram feitos os produtos? Se se utilizou algum animal pra fazer? Coisas assim...

Lisiane – Eu olho tudo, sempre que vou no mercado demoro e nisso eu sou a mala da casa mesmo. Mas eu olho tudo, dia desses eu achei um shampoo que é biodegradável e eu fiquei super feliz. Eu to lavando o cabelo agora com um shampoo infantil, que é biodegradável, eu achei o máximo... é o AquaKids.

Cazzo – É mesmo? Hahahaahahahaha...

Lisiane – Hahahahahahahahahaha...

Cazzo – Me diz uma coisa: você vê alguma falha na postura do GREENPEACE?

Lisiane – Ai, meu Deus, vão me banir... hahahahaha...

Cazzo – Abra o jogo. Largue o doce.

Lisiane – O GREENPEACE tem um nome e uma força de convencimento que talvez nenhuma outra organização que cuida do meio ambiente tenha no mundo. Acho só que deveriam tratar mais fortemente da questão da reeducação ambiental, da postura e não apenas o alarde, chamar a atenção para os problemas. A campanha de transgênicos e a dos oceanos são muito boas no sentido de educar, mostrar o que pode ser feito.

Cazzo – Como é que tá o andamento do Instituto RAM? O que já tem de concreto? Os planejamentos...

Lisiane – Já estão existindo coisas, projetos que precisam ser moldados pra serem apresentados, várias idéias viáveis e baratas pra serem colocadas em prática, a questão do lixo, o tráfico de animais silvestres que é uma coisa grave e o ambiente marinho.

Cazzo – Mas a tendência é ter um caráter extremista, causando impacto ou tende a ser um trabalho mais tranqüilo através da educação?

Lisiane – A idéia é trabalhar das duas formas, porque tem coisas que é preciso causar um impacto pra que se gere conhecimento, informação e fazer com que haja discussão a partir disso. Mas não só isso. Acredito em palestras, o contato olho no olho, porque é uma oportunidade de as pessoas dizerem que fazem coisas erradas ecologicamente falando.

Cazzo – A idéia de se criar esse Instituto foi por você ter visto falhas no procedimento de outras entidades?

Lisiane – É sim. Sempre achei que algumas organizações poderiam fazer mais do que já fazem, talvez com custo mais baixo. Vejo que se gasta muito dinheiro em algumas ações, mas nem sempre se vê os resultados que se espera. Então tem as palestras, que tem custo quase zero e se atingem 50 a 200 pessoas e se vê de perto a resposta delas.

Cazzo – Você ainda acredita que as crianças são a esperança do mundo?

Lisiane – Acredito sim. Nas palestras, várias crianças já vieram me falar que recriminam atitudes que os pais delas tomam... elas dizem que falam pra eles que eles estão errando, as crianças tem uma sensibilidade que adultos não tem e é vergonhoso pra um pai ser chamado à atenção pelo filho.

Cazzo – E tem gente te ajudando no RAM.

Lisiane – Tem sim. Tem gente aqui na Bahia, em São Paulo, no Rio, no Espírito Santo.
"Acho que tudo é um pedacinho de Deus. Daí que parte a idéia de que podemos ser melhores, afinal de contas, se Deus fosse uma pessoa, ele seria 'a pessoa'."

Cazzo – Mas seu principal meio de divulgação é a internet, né?

Lisiane – Ah, claro, é fundamental, imprescindível. Totalmente necessário. Minha mãe pega no meu pé, porque eu acesso muito, mas é a forma mais fácil, eu consegui agora o apoio de Edu Falaschi, vocalista do Angra, pra apoiar a causa, ele vem pra fazer um vídeo e tirar umas fotos pra uma campanha do RAM e o contato foi todo feito na internet. Apesar de conhecê-lo pessoalmente, o contato foi todo pela internet. Tem um cara de São Paulo que tá fazendo umas expedições de barco, sozinho, pra divulgar a Carta da Terra. Eu consigo multiplicar o alcance que o RAM poderia ter se tivesse uma sede fechada pra ganhar o mundo através da internet. Muita gente engatilhada em Portugal, França. Aqui no Brasil, na Bahia, São Paulo, Rio e Minas.

Cazzo – Me fala do Clean up Day.

Lisiane – O Clean Up Day surgiu nos Estados Unidos e hoje envolve mais de 100 países. Mas, assim, eu me sinto feliz em estar ali fazendo palestra pra 200 pessoas, explicando o que o lixo que elas deixam na praia provoca, mas, ao mesmo tempo, eu gostaria que não existisse, que não fosse necessário um dia mundial de limpeza da praia, um dia da árvore, do meio ambiente. Seria interessante que não existisse isso, seria interessante que as pessoas simplesmente pensassem antes de fazer as coisas. Como ainda não é assim, surgiu o Clean Up Day, que é o dia mundial de limpeza de praia.

Cazzo – Qual a entidade que cuida disso? Que criou esse dia?

Lisiane - The Ocean Conservancy, dos Estados Unidos. Lá existe uma costa de lixo que fica no mar, quase duas vezes a área do país... que é lixo do mundo inteiro.

Cazzo – Mas o daqui vai rolar onde?

Lisiane – Aqui no Porto da Barra.

Cazzo – Quais são suas referências nessa luta?

Lisiane – Eu curto pessoas apaixonadas, eu gosto de pessoas que abraçam a causa por paixão, qualquer causa que seja positiva. No GREENPEACE tem a Leandra Gonçalves, que acho fantástica, ela vai atrás, é uma referência, tem o Marcelo Rocha, que é presidente do SOS FAUNA, que é um cara fantástico e que tem uma luta muito grande, complicada, voltada à proteção dos animais... citar nome é muito complicado...

Cazzo – E referência de leitura?

Lisiane – Meu preferido é “Antes que a natureza morra”, do Jean Dorst, principalmente por ele ter sido escrito em 1956, publicado em 1956. O cara estudou o mundo inteiro, tem detalhes de todas as regiões e tem a idéia de mudança desde essa época, de mudança de atitude, de pessoas e governos, mas é um livro muito difícil de achar...
"A proposta do RAM é falar o óbvio, que lugar de lixo é na lixeira... ali, tem ali o papel de alguma coisa que vai parar na água daqui a pouco e se eu não pegar... olha só, é papel de um picolé...é preciso dizer o óbvio: praia não é cesta de lixo."

Cazzo – Você tem esse livro?

Lisiane – Eu ganhei de presente do meu ex... hahahaahaha...

Cazzo – Do Richard?

Lisiane – Hahahahahaha... botar o nome dele na entrevista é muito desaforo... hahahahaha...

Cazzo – Por que?

Lisiane – Ah, é dar cartaz! Hahahahaha... a ex a gente não pode dar cartaz... mas a gente é amigo, ele me deu esse livro, ele atravessou São Paulo pra me dar o único exemplar que ele encontrou naquela época, tava apaixonado, né?

Cazzo – Pronto. O homem perfeito.

Lisiane – Hahahahaha... Não é à toa que 3 meses depois eu fui embora, né? Larguei a minha Bahia, né?

Cazzo – Num sentido amplo, global, qual você acha que tinha de ser a atitude mais emergente que a gente deveria tomar pra evitar que o mundo acabe de forma tão acelerada?

Lisiane – Poxa... difícil... é muita coisa. Acho que é a água. Mas tem muita coisa, lixo é uma coisa absurda também...

Cazzo – Você acompanha algo do trabalho do Partido Verde? Você acha que ele se perdeu um pouco dentro da vida política ou você ainda vê algum valor ali?

Lisiane – Acho que a política tá toda muito perdida, não existe mais nenhum partido assim... não vejo nenhum partido manter a ideologia que mantinha quando foi fundado. O Partido Verde vai nessa linha, existem pessoas que estão lá ainda porque acreditam, que acham que podem mudar o meio ambiente através do trabalho político, mas acho que tá perdido sim. Muitos amigos acabaram saindo de lá por conta disso, por estarem insatisfeitos.

Cazzo – Você acompanhou a saída da Marina Silva?

Lisiane – Não faço aqui campanha pra Marina Silva. Mas sei que se você tem um projeto e as pessoas que estão ao redor não abraçam, é muito complicado levar adiante. Não sei exatamente o que houve, mas sabemos que o Minc é muito mais político, né? Ele conseguiu fazer coisas em pouco tempo, mas é questionável algumas posturas dele, abrir mão de algumas coisas que Marina não abriria, porque ela abraça a causa.

Cazzo – Já se especula que ela seja a candidata a presidente pelo PV. Você vai abraçar essa causa também? Hahahahaha...

Lisiane – Eu prefiro não misturar logo as coisas, eu gosto de pensar muito antes de votar. Preciso conhecer a fundo as propostas, as alianças, quem estará na equipe... não voto à toa, de jeito nenhum.

Cazzo – Você não é dessas que prefere bicho do que gente, não, né?

Lisiane – Não. Eu gosto dos dois lados, mas é que às vezes a gente se revolta com o que vê, a gente desgosta, desacredita por conta da atitude que as pessoas têm, às vezes ela sabe que a atitude é danosa mas mesmo assim preferem fazer aquilo. Então dá uma desesperança, um desânimo. Mas eu gosto das pessoas sim. E gosto tanto que estou trabalhando em prol de um meio ambiente melhor.
"As pessoas tem a necessidade de saber o que podem fazer. Ok, o mundo tá assim, mas o que se pode fazer? "

Cazzo – Venha cá, Lisiane, quando você vê uma barata, você mata ou deixa ela viver?

Lisiane – Caralho, velho, eu tenho pavor a barata. Eu acho que barata foi um erro de Deus. Pra servir de alimento às aves existem vários outros bichinhos menos nojentos, como os besouros.

Cazzo – Mas, confesse: você mata barata?

Lisiane – Eu tenho nojo, cara. Eu dialogo com ela, eu digo: “Fica aí.” Aí vou chamar alguém pra matar, mas eu não tenho coragem.

Cazzo – Ah, você é cúmplice, então.

Lisiane – É, sou cúmplice. Sempre.

Cazzo – Ah, você é igual a ACM, então, ele não matava, mandava matar.

Lisiane – Hahahahahahahahaha... que comparação!!! Hahahahahaha...

Cazzo – Não é, não? Hahahahahahahahaha...

Lisiane – Eu tenho pavor a barata.

Cazzo – O mosquito te mordeu aí e você ficou passiva. Você não tem desprezo por esses bichos que querem fuder a gente, não?

Lisiane – Hahahahahaahaha...

Cazzo – Eu acho uma escrotidão. Eu detesto muriçoca.

Lisiane – Ah, eu mato muriçoca também. Acontece, às vezes. Muriçoca, barata e carrapato, acho que o mundo poderia passar sem eles.

Cazzo – Sua relação com Deus? Você é igual ao Alberto Caeiro: “Deus é as flores e as árvores...”?

Lisiane – Adoro o Fernando Pessoa, principalmente o Alberto Caeiro. Meu poema preferido é o “Num meio-dia de fim de primavera”. Eu nos vejo como uma extensão de Deus. Tem um livro, que se chama “Conversando com Deus”, que diz que somos a experimentação de Deus, digamos, Deus é uma energia e é através de você que Ele experimenta a vida. Partindo desse princípio, acredito que temos uma responsabilidade absurda no fazer, no construir as coisas. Ele fala também no livro que Deus é amor. E o que é isso? É aquilo que constrói, que nos impulsiona, que não deixa a gente ficar parado, eu vejo por esse lado.

Cazzo – Mesmo que a carreira de cantora deslanche, a gente não vai perder Lisiane ativista, não, né? Você me parece mesmo multifuncional...

Lisiane – Hahahahahahaha... pelo contrário, acho que toda pessoa que é geradora de opinião, ela tem obrigação de abraçar uma causa, uma que seja. Se você tem uma exposição privilegiada, se tem esse carisma, essa empatia, é obrigação abraçar uma causa. Claro que se eu conseguir ficar famosíssima... hahahahahaha... a causa estará cada vez mais à frente.

26/06/2009

Carlos Pronzato sorri.

CAZZO ENTREVISTA CARLOS PRONZATO



Há muitos anos eu desisti de salvar o mundo. Li, reli literatura subversiva mas não fui à luta porque sou mesmo de uma geração que nasceu desiludida. Carlos Pronzato não teve a mesma “sorte”.

Diretor teatral, escritor, cineasta independente, e, agora, blogger [www.lamestizaaudiovisual.blogspot.com], Carlos Pronzato acredita num mundo melhor. E faz, e trabalha, e luta, a seu modo, para que este tal mundo aconteça com uma câmera na mão porque são seus ideais que guiam a câmera: Papeleras GO HOME! - contra as fábricas de celulose-“; “O Panelaço, a rebelião argentina”; “Bolívia, a guerra do gás”; “Bolívia, a guerra da água”; “Jallalla Bolívia, Evo Presidente!”; “A Rebelião dos Pinguins – estudantes secundaristas contra o sistema no Chile”; “Carabina M2, uma arma americana, Che na Bolívia”; “A Veracel no Abril Vermelho do MST”; “Maio Baiano”; “A Revolta do Buzú”; “Além do Jejum, as verdades do Velho Chico”; “Até Oxalá vai à guerra”; “Buscando a Salvador Allende”; “Fernando Lugo, de bispo a presidente do Paraguai“.

Assim como Verger, Carybé e Arto Lindsay, Carlos Pronzato é desses estrangeiros que não estranham, pelo contrário, se sentem em casa quando dentro da Bahia. Mas cumpre também um relevante papel navegando pelas veias da América Latina, sempre atento a tudo o que pulsa no combativo continente. Sujeito persistente, Pronzato retrata, em absoluto, a vida real, concreta, sem maquiagens, sem vestígio algum de tentativas espúrias de manipular o que deve e o que não deve ser visto.

É óbvio que toda e qualquer manifestação artística é o reflexo de quem a pratica. Mas Pronzato, documentarizando, não nos impõe a realidade, decerto, contrapõe a vida ideal que as novelas nos fascinam – os problemas resolvidos, a inexistência de conflitos sociais latentes, a consagração do amor puro – porque de sua lente capta episódios sem recortá-los, transformando seus documentários em crônicas audiovisuais, numa estonteante produção, um jornalismo ambulante e emergente na busca de contar o fato, fazê-lo imortal.

A aparente raiva tão comum no semblante desses seres inconformados não se desenha num traço sequer no rosto leve do cineasta. Pasmem, Carlos Pronzato sorri.


Vejo nos seus filmes, na sua linguagem, quase um total descompromisso com a estética e um desgastante foco na realidade nua e crua. Estética e conteúdo, para você, são incompatíveis? (Maurício Moraes, 26 anos, Ator)





Pronzato - Não há conteúdo sem estética, por mais preeminência dada ao conteúdo. As vezes a relevância das informações que constituem o núcleo do trabalho podem desbordar qualquer forma premeditada e se constituir na própria estética do material proposto. Estamos falando da “espécie” documentário militante gerido a partir de momentos (que poderão vir a ser históricos) que no calor da hora, geralmente nas ruas, nas ocupações, nos enfrentamentos com as forças repressivas e até com as próprias direções – que em muitas ocasiões não conseguem acompanhar as dinâmicas criativas intra mobilizações - e dos testemunhos, constroem, com suas próprias formas, seus próprios conteúdos. Cabe a nós, “historiadores cinematográficos”, refletir no próprio momento da captação, quando a montagem do filme começa a surgir, sobre a seleção e organização do material coletado e o espaço de intervenção estética possível de ser incluído, sem mexer na qualidade e potencia política da voz que o entrevistado pretende veicular. Por tanto, o que há é o compromisso de não omitir esta relação vital entre conteúdo e forma, constituída de algo inexplicável que eu chamaria de transpiração, de um suor próprio de filmes paridos em total cumplicidade contestatória entre o veículo, o documentarista e o fato, geridos com mínimos recursos, em aberta exposição, sem resguardos nem respaldos, porque não pertencentes a nenhum tipo de coordenação política e/ou institucional, e portanto partícipes dos mesmos riscos daqueles que se expõem da mesma maneira nas ruas aguardando apenas reivindicações imediatas, que não se alastrem em conluios de gabinetes nem negociações posteriores com instancias, sempre diluentes, com o Estado. Assim, colocar o foco na realidade nua e crua, colocar o olho no âmbito que não admite tergiversações, o espaço autêntico da reclamação – e quanto mais espontânea mais autêntica – pode incomodar muitos “profissionais da revolução”, mas com certeza, não abre mão do compromisso com a História que atravessará finalmente a deformação das versões dos ditos vencedores.


Considero o senhor um grande cronista do nosso tempo. Mas, ainda assim, existe algum projeto seu de fazer um filme atemporal, ou mesmo ficção? (Rita Maria Souza, 33 anos, Estudante de Direito)


Pronzato - Sim, até agora fiz apenas 3 filmes, curtas de ficção baseados em relatos da nossa História, “Canudos, numa longa curva” – filmado na própria Canudos ou Nova Canudos -, “Pierre Verger, chegar à Bahia” – filmado no Hotel Chile, onde ele ficou nos seus primeiros anos na Bahia e pode ser visto em youtube -, e “Caravela Tupiniquim” – filmado em Coroa Vermelha, sul do estado, sobre os 500 anos do Brasil e ainda não concluído. Como vê, todas estas ficções tem um pé na realidade. Estes trabalhos tiveram patrocínios parciais como a Uneb, a Dimas, e outras instituições. Mas por diversos motivos tiveram que ser finalizados através do mesmo tipo de esforço de produção militante aplicado aos documentários políticos de temas pontuais. Aqui seria bom fazer um aparte porque os públicos são diversos e nem todos acompanham a totalidade das obras realizadas – já que a Secretaria de Educação, em nenhuma gestão – mas nesta última acho isto um absurdo –, e como sempre solicitado por professores, não tem a coragem de distribuir parte da minha obra nas Escolas. Mas é bom dizer que filmes longas como “Carabina M2, uma arma americana. Che na Bolívia”, “Buscando a Allende”, e outros sobre temas históricos tiveram outras construções estéticas, apesar de ter as mesmas formas produtivas. Como já me falaram, para se adentrar neste tipo de solicitações de apoios mínimos para a construção destes filmes, tem de se fazer votos de pobreza primeiro, para não achar que as esmolas são esmolas, senão aportes para uma missão, quase franciscana, por certo, ou quixotesca (para isto deixei crescer um bigode que faria a inveja do cavaleiro da Mancha).
Mas, sim, existem projetos que tentarão aliar esta proposta política de temas brasileiros e latino-americanos que venho desenvolvendo há uns tempos com uma outra proposta munida de um envoltório ficcional, o que inclusive promoveria uma penetração mais profunda em âmbitos populares - e nem tão populares - de recepção, hipnotizados diariamente com a deformação deste formato que é a novela e infinidade de filmes comerciais de ocupação mental. Nós também temos direito a hipnotizar!..para esclarecer. rsrsrs.

Só que tem um, porém, isto precisa de recursos bem maiores, principalmente porque tem que “alimentar produtores/captadores de recursos“ que vivendo nesta parte do mundo, esquecida, espoliada, arrasada, pretendem ser produtores hollywoodianos de filmes do terceiro mundo. Não é minha intenção ficar preso nessas teias de um show business amador terceiro-mundista. Se é para se ganhar dinheiro mesmo com cinema vou para os states ou pro Rio que é mais perto. Assim, fica difícil achar “sócios” que topem propostas cinematográficas terceiro-mundistas. Mas a desistência não é palavra que conste no catálogo do documentarista político, e por isso estou a procura de novas formas de produção,- depois de ter praticamente inventado esta sorte de “mascatismo político/cultural” com a qual convivo fazendo “as crônicas do nosso tempo”, como alguém falou aqui - e hoje com a explosão tecnológica no mundo audiovisual acho que poderá ser possível ter a chance de poder elaborar com mais cuidado filmes, sem a intervenção ou o patrocínio quase exclusivo do Estado ou empresas capitalistas/imperialistas como a Nestlé, Petrobrás e similares. Até hoje, com os pequenos recursos públicos, retirados com muita paciência dos bolsos públicos de parlamentares, e de alguns Sindicatos e Organizações ainda não totalmente devoradas pelas parcerias PP e/ou pelo próprio sistema, mas principalmente gerados pela renda através da distribuição, comercialização dos DVDs com diversos segmentos do público em diversos países, que com este tipo de documentários debate a realidade e muitas vezes se mobiliza, não dá ainda para empreender esta aventura, mas se puder, em breve, será iniciada.


Pronzato, quais são as suas referências cinematográficas? E o que você acha realmente ruim em termos de estética cinematográfica? (Rui Figueira, 23 anos, Músico)

Pronzato - Certa vez, no inicio dos anos 80, quando ainda morava em Buenos Aires, e fiquei uns tempos residindo no apartamento de Hugo Fregonese, diretor de cinema argentino que morou nos EUA dirigindo estrelas de Hollywood como Gary Cooper, Edouard Robinson e Bárbara Stanwick, entre muitos outros monstros sagrados, referencia de qualquer enciclopédia cinematográfica mundial, quando solicitado a me emprestar alguns livros para o estudo informal de cinema, me indicou um setor exclusivo da sua biblioteca: a dos pintores. Rembrandt, Caravaggio, Giotto, e etc, etc. Luz, enquadramentos, organização do espaço, textura de cor, etc. E lhe dou outra pista, minha formação teatral previa a academia me levava a ler peças nos meus 15, 16 anos antes de assisti-las, o que me provocava imaginar montagens “mentais” próprias antes de ver elas representadas no palco, o que de alguma forma também eram montagens “mentais” de cinema. Portanto o que estou querendo sinteticamente colocar é que as referencias provem de diversos campos, de diversos suportes artísticos, como inclusive a poesia, que pratico certa assiduidade, a mais cinematográfica das artes porque constituída essencialmente de imagens a partir da escolha e organização das palavras. Pelo menos é o que a gente tenta quando escreve.
Agora, especificamente, quando ainda não tinha abordado o cinema como uma ferramenta política mais do que como um caminho apenas estético, minhas “leituras” tal vez sejam as clássicas de quase todos da minha geração: o neo-realismo italiano, a nouvelle vague, Buñuel, Fellini, Wajda, Tarkovski, Herzog, Fassbinder, também Pasolini, os irmãos Taviani e já na minha seara do cinema de denúncia, os latino-americanos (Birri, Sanjinés, Gleyzer, Glauber). Minha formação é completamente anárquica, o que me permitiu beber em muitas fontes com um sentido amplo do mundo, para depois decantar o necessário criando minha própria ordem de “anartista”.
Agora, ruim para mim é a estética que migra da TV para o cinema, ritmos, enquadres, planos e tempos incompatíveis, narrativas infinitas e óbvias próprias da novela com a que estamos acostumados a ver principalmente no cinema comercial brasileiro - e muitas vezes no chamado “de autor”-, o mais norte-americano do mundo. Um cinema milionário, e estou me referindo ao brasileiro em relação com outros do seu próprio contexto latino americano, que não aporta absolutamente nada em termos de conteúdo e forma, mais ainda pela responsabilidade que um pais/continente como este deveria ter na sua capacidade de influencia (em termos de escola e ideologia e não apenas comercial) dos vizinhos e de enfrentamento ao monopólio dos mercados do cinema dos EUA, com seu 85% do mercado mundial. Mas a possibilidade de uma estética latino-americana ainda tem esperança de sobrevivência por aqui, se vier acompanhada de um sentido político de ter consciência do contexto no qual se cria e se vive, da nossa identidade complexa e diversa, muito diferente do mundo anglo-saxão que as indústrias locais pretendem copiar e impor por aqui para um consumo asséptico e fácil. Não que isto não aconteça nos outros países da A.L. mas se o Brasil – e em se falando em indústrias tamanho sim é documento - assumisse a vanguarda da transformação alguma vez, a história seria outra...mas o gigante continua adormecido e o pais do futuro, nas palavras do escritor austríaco exilado no Brasil de Vargas, Stefan Zweig, ainda não disse a que veio.



Seus filmes possuem um padrão de edições sem arrumação, quase não há fotografia e pouco jogo de câmeras. Isso é uma linguagem própria ou é falta de recursos? (Ana Miranda Costa, 32 anos, Artista Plástica)


Pronzato - Bom, se refere-se aos do “mundo estudantil”, realmente a falta de recursos foi total (“Maio Baiano”, “A Revolta do Buzú”, etc), e também proposital, para deixar bem claro que o filme era solidário às pretensões estudantis de construir com autonomia, por fora de quaisquer aparelhagens. Apenas a logística e as parcerias, os escambos, foram contemplados para a construção e finalização destes materiais. Alguns outros também foram construídos em similares circunstancias e formas de produção alternativas, no calor da hora, fato que extravasa na recepção dos audiovisuais, com total risco da minha parte mas com sentimento de dever cumprido de informar do outro lado das informações da mídia sistêmica. A impulsão para o debate, a construção de espaços políticos, a mobilização que podem vir a provocar estes audiovisuais vão muito mais além do mero fato cinematográfico, reduzido a forma, estética, e jogo de câmeras. O que ali se coloca em jogo não é apenas um jogo de câmeras. Então, de alguma maneira os próprios fatos “pedem” uma estética acorde com o retrato da realidade, porque inversamente, sua função, ao colocá-la nua e crua como ela é, a está negando, a está denunciando, a está colocando no debate, inversamente do cinema dos lobbies e da indústria especialista em maquiagem e fotografia de camuflagem, incluindo aí muitos documentários que abordam o mundo social sem o menor convívio com o mundo retratado e muito menos sem a inserção e circulação posterior nesse mundo para alimentar propostas políticas. Ao contrário, seguem a mesma lógica do 99% das teses acadêmicas que se debruçam sobre aspectos sociais: nunca voltam aos seus “objetos de estudo”, circulam apenas na Academia para galgar títulos e apenas mais títulos para os seus investigadores.
Isto não invalida que eu, por exemplo, voltando as linguagens estéticas, adore o cinema noir dos 40, por exemplo, e o latino-americano feito em seguida – el “índio” Fernández e Maria Félix, Leopoldo Torre Nilsson para me deliciar com a fotografia preto e branco e a iluminação de estúdio daquele cinema que fala da imaginação e de propostas e inquietações pessoais, que também são válidas. No momento, eu falo da realidade, para transformá-la. A falta de recursos acho que reafirma uma proposta política de fazer cinema, acho que é natural, condiz com o que faço e com os temas que retrato. Com maiores recursos tal vez mude algumas coisa – mais fitas para filmar e até com duas baterias, (rsrsrs), um carro da produção para se deslocar, créditos no celular para agilizar a produção, maior tempo e tranqüilidade para organizar a edição, conseguir farto material de arquivo, organizar a divulgação com maior eficiência, maior tempo para pesquisa, e muitos etceteras - o que não pode é mudar o essencial que é a cumplicidade com os de baixo, os que não tem voz, e que o governo, qualquer governo fica achando que dando o arsenal digital completo às parcelas mais sofridas da população, vai resolver o problema de acesso a cidadania. Veja se não que vida útil tem os materiais audiovisuais que o governo e a maioria das ONGS fazem para “acalmar os futuros rebeldes” e a vida útil dos materiais militantes feitos sem o intuito de atender quaisquer programas assistencialistas do governo que for. Portanto, com recursos você pode fazer belas merdas como toda a propaganda política dos governos que nos enchem a paciência regularmente, distribuir editais “a mancheia” para que as empresas privadas continuem lucrando sem aportar um tostão do seus bolsos – apenas transformam impostos em cultura de barganha – e não aportar absolutamente nada para a construção de um autentico olhar latino-americano, filho legítimo da estética da violência e da fome como quiseram muitos ilustres fundadores da dignidade nossa como Che, impulsor de tudo que tivesse a ver com “comunica- ação” quando ministro em Cuba, e ele mesmo escritor/cronista e fotógrafo.



Tenho impressão de que seus filmes sofrem influencia de Glauber Rocha. É isso mesmo? O que você pensa do Cinema Novo? (Cássia Rivas, 30 anos, Socióloga)


Pronzato - Antes de Glauber, até porque só estreitei “laços” com a obra deste visionário intelectual e militante a serviço de uma proposta coletiva, só a partir do momento de vir morar no Brasil, acho que as influencias tem que ser procuradas noutros cinemas contemporâneos, ou até prévios a Glauber, como o de Fernando Birri,( cineasta argentino, propulsor de uma cinema com sabor e índole latino-americana) com seus docu-reportagens na pioneira Escola de Santa Fé (Argentina), ou o mundo altiplânico do boliviano Jorge Sanjinés, e tantos outros como Raymundo Gleyzer, cineasta desaparecido argentino (cujo filme principal – Los Traidores – emblema no mundo do cinema latino-americano de combate teve meu pai – Víctor Pronzato ou Proncet - como ator principal, autor do conto no qual se baseia o filme e o seu roteirista). E o Cinema Novo também se inscreve nesse relato latino-americano dos 50, 60, um rechaço as imposições da indústria cinematográfica ianque e as suas macaquices locais, em plena expansão por aqui nos anos JK até as barreiras nacionalistas que o Jango levantou no inicio dos 60. Claro que estamos falando de influencias um tanto involuntárias, inconscientes, mas acho que de Glauber se tivesse que atribuir ao que faço uma influencia dele, seria a sua postura insistente de uma proposta “pedagógica” de se olhar e se sentir diferente e resistente ao produto de consumo em que a indústria queria -e quer- transformar um ser pensante observador num ser passivo, apto para o consumo indiscriminado de merda visual globalizada e merda local fruto da estrangeira. Por isso, acho Glauber paladino nesse embate. Che, um operário intelectual com uma arma, seu último recurso e seu último combate. Glauber, um operário intelectual com uma câmera, seu último recurso e seu último combate. Uma idéia na cabeça, uma câmera (arma) na mão. É a nossa solução, o remédio para um diagnóstico claro de dominação perene e que segue sendo preterida até pelos governos de esquerda, e que “atuam no mesmo filme da direita” e que quando assumem o poder não tem a mínima coragem de promover um cinema diferente, como o de aqueles anos iniciais do nosso despertar cinematográfico construtor de identidades. Então, ambos permanecem vivos nas suas obras e nas de muitos, espalhadas pelo mundo. Isso é o que vale, isso é o que resta.

Sou membro da UJS-Bahia. Assisti o filme "Revolta do Buzú" e percebi que você mostra tudo o que aconteceu. Ainda assim, ficou uma má impressão sobre o movimento estudantil. Qual sua opinião sobre o movimento estudantil hoje? (Rennan Vieira, 19 anos, Estudante)

Pronzato - Rubén Blades, compositor panamenho, autor entre muitas outras salsas, de Pedro Navaja, diz nesta última canção, um clássico tal vez não conhecido por estas bandas devido ao protecionismo brasileiro praticado com seus vizinhos, inclusive no âmbito da cultura: “...la vida te dá sorpresas, sorpresas te la vida, há, há....”. Pois é, o documentário ao qual você faz referência é de 2003, portanto, em todos esses anos é a primeira vez que escuto (leio) isto, o que é uma verdadeira sorpresa: que ficou uma má impressão sobre o movimento estudantil.
Se por um lado mostrar tudo o que aconteceu, como você coloca, é um elogio descabido já que e impossível abordar uma cidade inteira em levante com uma simples camerinha e o agradeço, a seqüência da sua opinião realmente me surpreende. Se a má impressão ficou para aqueles que desde o governo municipal e/ou estadual da época ou desde o empresariado do transporte local e da população omissa que não acompanhou o levante, olhavam como as suas previsões de cooptação do movimento não eram concretizadas, ai, tudo bem, que fique a má impressão, disso se trata, quanto pior a impressão para o mundo das instituições e do lucro, mas respeitabilidade para o movimento popular e para nós, “documentaristas do lado de cá”. Agora, se essa opinião vem de um estudante que hoje com 19 anos, e na época calculo que com 13/14, a idade da força rebelde maior da revolta, e que ainda por cima imagino teve e deve ter acesso na sua Organização ao farto material que circula na internet, na Academia, em escritos independentes e de segmentos políticos os mais diversos sobre o tema neste pais, além dos testemunhos orais que desde aquela época ainda comentam a maior mobilização vista por aqui desde o quebra-quebra dos ônibus do ano 81, ai a coisa passa a preocupar. Se você que é da UJS/BA, não consegue enxergar por motivos que imagino dependentes de instancias políticas superiores ligadas ao partido que organiza essa força estudantil, e não querem admitir que a rebeldia estudantil tomou rumos imprevistos ocasionando o que eles jamais conseguiriam desde a planificação dos seus gabinetes, não é problema do que mostra o documentário, é problema da interpretação dos fatos. Isto não retira o fato de que todo material audiovisual que pretenda documentar fatos políticos passa por recortes desde a escolha dos entrevistados até a montagem final e que por trás da câmera pode ter alguém que não seja um mero repórter (com todo respeito a aqueles que tentam manter sua independência trabalhando para a hegemonia do poder midiático, se é que tentam) senão um investigador solitário a serviço do coletivo, munido de uma câmera e que além disso milita na causa da solidariedade ao conjunto do protesto e não a um grupo, a coisa muda de figura. Eu pergunto, se o partido e a UJS sabe da força e da penetração que um documentário como esse teve e tem no estado e no país - e até no exterior, estando no Chile trabalhando no filme “A Rebelião dos Pingüins” sobre os protestos estudantis secundaristas que PARALISARAM O PAÍS por uma semana, os estudantes tinham noticias dos baianos- porque não sair do “reduto” dos conhecidos de sempre e construir um audiovisual que dê conta do que, ao seu entender, realmente aconteceu para deixar tão ma impressão do movimento estudantil. A má impressão que pode ter ficado é a atuação do movimento estudantil organizado na UJS, na UNE e demais partidos que tentaram se apropriar das ações descentralizadas da multidão, participando de negociações com os poderes públicos, se auto designando porta-vozes para isto.
O movimento estudantil não é só a UJS, - da qual conheço e comparto com muitos dos seus integrantes observações diárias sobre a realidade local e discuto com eles estas mesmas questões abertamente e em mesas de debates, já que da dialética se nutrem as discussões e a ação- o movimento estudantil também se organiza noutros partidos e ainda em espaços apartidários, que também tem o direito de lutar da maneira organizativa que achem mais conveniente, apesar de não terem todos recursos organizativos similares, (pode até ser um único individuo organizado que lute sozinho pelo que ache justo sem querer entrar no terreno da organização política partidária burguesa e que a sua luta convoque outro e mais outro e assim sucessivamente). Ou acaso aquela revolta teve a sua força arrasadora na massa organizada ou nos indivíduos conscientes (também teve inconscientes que até cobravam pedágio nos cortes, é claro!) que não eram simples gorduras de uma massa informe? Em resumo, e sobre a sua última pergunta, se uma parte do movimento estudantil vai continuar no jogo de interesses apenas eleitorais, em total apatia a uma formação política séria e ampla, que socialize outras dinâmicas políticas que a contemporaneidade nos mostra – Chiapas, o mundo indígena, etc - e que não seja apenas a de vestir a camiseta do Che - sendo cabo de força de instancias políticas superiores em nível local e nacional e até em certas conjunturas do governo federal, sem se entregar de corpo e alma nas lutas maiores de maneira autêntica como na Revolta do Buzú, não nutro esperança nenhuma nesse tipo de movimento.
Criticas como esta as venho fazendo desde aquela época – alias, são os próprios acontecimentos que o filme retrata que falam mais alto- e acho que não abalaram totalmente minhas relações com esse segmento organizado da juventude, apesar de que na última Bienal de Cultura realizada em Salvador alguma mão diretiva me deixou de fora na mostra de cinema e/ou palestra como já estava combinado há tempos. Ossos do oficio....




Pronzato, li uns poemas seus e achei-os maçantes. Você consegue ver relação entre poesia e política? (Caio Fontes, 21 anos, Estudante)



Pronzato - Dentro dessa relação escrevi alguns livros como: “Poesias contra o Império”, “Bolívia Poema Rebelde”, “Canudos não se rendeu”, “Che, um poema guerrilheiro”, “1968, Che, teu nome é uma imensa barricada”, “Poemas sem Terra” entre outros livros de poesia “políticos”. Sei que não é fácil uma absoluta concordância sobre isto, mas sobre se eu vejo relação entre poesia e política, sim, vejo, não consigo ver uma outra coisa entre ambas criações humanas, e tentar tento, não tenha dúvidas que se tempo tivesse para não me preocupar com as questões atuais que dizem respeito ao nosso cotidiano político local e mundial, com as quais trabalho diariamente, o que não daria para escrever sobre o mar que tenho aqui na frente como já escrevi sobre ele numa época – “Lenta Geografia” - , ou sobre as mulheres que amei, que deixei ou me deixaram (mais disto último), ou sobre questões mais profundas e introspectivas ainda que apenas dizem respeito ao interior de sim mesmo, espaço único e cósmico. Mas, a poesia só tem sentido coletivo quando se integra na luta como uma arma a mais e apenas reproduz o que a poesia, a verdadeira poesia do enfrentamento do ser humano contra seu opressor dita ao poeta. Eu não tivesse entrado na política sem as armas da poesia, não poderia me habituar a um escritório político, detesto essa expressão, ainda bem que não tem um escritório poético, já imaginou? aí é o fim do mundo.
Guardo com todo carinho a frase de uma poetisa (ou poeta) mapuche - nação indígena extremamente combativa do sul do Chile, e tema já filmado de um próximo documentário a ser montado – quando, lá mesmo no Chile, no final da exibição do meu filme sobre o Che na Bolívia, com lágrimas nos olhos me disse que gostou do filme porque tem poesia. Foi o maior cumprimento que recebi até hoje como cineasta documentarista: a poesia do documentário, quando a atinge, não é mais do que a poesia da vida, essa interrogação constante sobre a qual nos debruçamos com nossos “armamentos profissionais”. Porem, eu credito essa poesia que ela viu no documentário a poética e revolucionária vida do Che – ele mesmo poeta – além do fato das intervenções próprias que a gente articula para construir a narrativa, ou para contar o conto, como diria Garcia Márquez. Poetas com Neruda, Brecht, Agostinho Neto, só para citar os que tiveram maiores relações com o mundo da política além das suas poesias combativas, mostraram que a verdadeira poesia não pode se omitir das lutas, ao contrário, só pode subsistir se é a partir delas. Até a denominada poesia concreta dos irmãos Campos é uma postura política, mas isto já é um outro papo que pode nos levar a uma mesa de bar, e aqui, pelo que entendo, está se falando de lutas concretas, sem jogos de palavras.


É verdade que você é argentino? Como veio parar na Bahia? E como começou sua relação com o cinema? (Maria Bartira Moura, 27 anos, Estudante)



Pronzato - A minha carteira de identidade diz que nasci em Buenos Aires num inverno do ano da revolução cubana. Diz também que meu pai era italiano e minha mãe argentina descendente italianos e galegos. Portanto, isso, mestiço de culturas importadas nascido em território indígena que alguma vez não teve nem portenhos e nem tango. Mas tem outro documento, o passaporte, essa livreta absurda que pretende remarcar apenas nossas diferenças e que alguma vez teremos que abolir, para começar pelo menos simbolicamente a construir nossa identidade maior- em vez de fronteiras, pontes que nos unam -, que diz que andei durante vários anos conhecendo outros territórios ao sul do rio Bravo ou rio Grande – aquele que nos separa, além da cerca que os ianques construíram, dos EUA -, sem motocicleta pero com diários de viagem, desde o México até o Chile e desde o Panamá até a Martinica, com uma escapadinha de navio para Europa e que desembarquei em 89 neste porto indo-afro-português e hoje brasileiro e baiano. Aqui estudei teatro (me formei em 93 na UFBA e fiz pós na UFRGS em 2002), que já era minha atividade principal na época, dirigindo muitas peças até que percebi que o teatro não teria a penetração que tem o audiovisual para estes temas que trabalho atualmente, e retomei no final dos 90, o percurso iniciado no cinema em 81 quando iniciei na prática no cinema comercial na Argentina na função de meritório de direção (espécie de estagiário aqui) e que continuei no México em alguns filmes feitos por exilados latino-americanos até o périplo citado mais acima em que me instalei por aqui até hoje. Então, praticamente, a relação com o cinema começa ali, nos sets de filmagem – ainda guardo minha carteira de SICA (Sindicato da Indústria Cinematográfica Argentina)-, mas a verdadeira relação começou em casa com meu pai músico de cinema, teatro e TV, roteirista e tal e minha mãe artista plástica, fotógrafa, que me passaram todo seu arsenal artístico e vendo muitos filmes desde criança no programa “Hollywood em castelhano” na TV preto e branco, quase todo o cinema argentino e mexicano em programas específicos e indo no cinema – e no teatro - com eles. Não tive “opção”. Um detalhe, se isto pudera interessar a alguém ainda hoje, em tempos de internet: no final dos 70 ia no cinema principalmente assistir retrospectivas das grandes correntes cinematográficas munido de cadernetas onde fazia observações dos filmes em todos os seus aspectos, depois continuei essa prática assistindo filmes na TV: posicionamento de câmaras, angulações, tempo das cenas, efeitos, cortes, e até as fichas técnicas. De alguma maneira ia me inserir nesse mundo, ainda não sabia como, e uma das possibilidades que foi aparecendo, tomando espaço, “disputando hegemonia” com outras, foi esta, com este perfil político atual que foi surgindo tal vez naquela viagem latino-americana de iniciação, e ficou aguardando sua oportunidade de “me tomar por assalto”. Mas que ia continuar a tradição familiar, já sabia e me preparei para isso.

A imagem do glorioso Che hoje está um tanto desgastada e até mesmo na moda. O seu curta-metragem e o longa sobre o Che são muito bons. Você tem essa mesma percepção? Como você vê a imagem de Che hoje em dia? (Sávio Silva, 28 anos, Estudante de História)

Pronzato - Repetidas estadias na Bolívia (que geraram um pequeno livro: “Do Che ao Evo”) investigando seus 11 meses nesse pais para meu documentário “Carabina M2, uma arma americana, Che na Bolívia” me ofereceram a possibilidade única de ver o quanto de Che permanece vivo nos más recônditos cantos da selva, da montanha e também nas cidades. O mundo camponês da época o ignorou, não houve apoio para a coluna guerrilheira guevarista e sucumbiu sob o poderio de exército boliviano com o inestimável apoio logístico e o treinamento ianque dos rangers. Tal vez por isso hoje Bolívia, numa sorte de efeito tardio de reconhecimento, reivindica a sua permanência no imaginário popular e o MAS (Movimento ao Socialismo) do presidente Evo Morales fez da sua figura o eixo central do seu programa revolucionário camponês/indígena. Tudo isto para dizer que a imagem do Che emerge hoje mais contemporâneo que nunca num país que é o laboratório sócio/político do continente com seus embates até a morte entre a esquerda, acrescida dos novos movimentos sociais e a direita oligárquica. Noutros países também, em âmbitos sociais que realmente lutam por transformar seus territórios, o Che está sempre presente com sua voz e exemplo entre os excluídos. A pesar do desgaste que os veículos (des) informativos ligados às transnacionais e as grandes empresas locais querem impor na figura do Che, porque sabem que a sua autenticidade, sua entrega, sua palavra e a sua ação foram de tal magnitude que o transformaram num perigosíssimo exemplo a ser emulado, eles, esses meios, não conseguem tirá-lo do espaço real e mítico ao mesmo tempo, que os povos do mundo lhe outorgaram. A imagem do Che, penso, cresce mais ainda a cada baixeza desses “jornalistas”, “ensaístas”, “comentaristas” que como ínfimos roedores, capitães do mato a serviço dos seus coronéis, tentam obstaculizar seu avanço através dos tempos. Infelizmente o conhecimento que se tem dele em amplas fatias da população é muito pequeno ainda, mas esse pouco é suficiente para não serem vítimas da desinformação provocada pelos donos do poder real, o econômico. A cada dez anos as comemorações da sua desaparição física crescem no mundo todo, pude corroborá-lo em Rosário, sua cidade natal, ano passado e as suas repercussões no mundo todo. Quanto a moda, é um fenômeno inevitável, tamanha é a sua figura que encaixa em qualquer produto. Mas para os que defendem a idéia de que o Che é apenas uma camiseta, um chaveiro, ou até uma marca de charuto, a triste novidade é que por trás de toda essa apropriação comercial está o verdadeiro rosto daquele que causa o maior espanto ao sistema porque o atacou da mesma maneira, com as armas que o sistema utiliza diariamente para se perpetuar no poder e defender seus grupos privilegiados com o terror diário dos seus exércitos e policiais de extermínio. Pensavam que o Che ficaria preso na merchandising, mas como digo num poema do meu livro “Che, um poema guerrilheiro”: o Che está sempre aí, como atrás de um vidro embaçado.
É preciso estudar o Che, colocar seus livros, suas obras, a experiência de sua vida nas escolas secundaristas deste país, deste continente.


Você tem relação com algum partido político? Outra pergunta: o que você acha da prática de "laranjas" (funcionários fantasmas) por parte de parlamentares de esquerda? (Bruna Tavares, 26 anos, Estudante de Direito)



Pronzato - Relações eu tenho – inclusive de amizade -, relações de trabalho, esporádicas, quase que exclusivamente nalgum momento de tensão social ou mobilização. Ou quando vou nos espaços parlamentares procurar os apoios para fins político/sociais que me correspondem como cidadão que paga impostos até no palito de fósforo que compro e aporto involuntariamente para as instituições legislativas. Seguindo com as relações, as vezes fica difícil construir amizades nos espaços partidários quando há diferenças de visão política, de organização coletiva dentro ou fora dos partidos, já que essa inserção vai ser a mola mestra das relações noutros âmbitos. Para nós, cineastas documentaristas que não participamos de coletivos organizados em partidos, ou em Ongs ou em organizações de outro tipo, - tem outros que sim participam e constroem seus materiais por dentro destes movimentos específicos mas geralmente com circulação restringida a esses espaços- e que transitamos pela diversidade do movimento social em toda sua amplidão não nos resta outra alternativa do que ter um senso crítico bem treinado e aguçado e por tanto, no meu caso, não vejo possibilidades de me organizar verticalmente à maneira partidária, sem ter a possibilidade da minha opinião veiculada no cume da pirâmide, de onde partem as decisões, a maioria das vezes sem consulta às bases ou com mínima consulta, ainda que esta seja “popular”. Acompanho sim pela infinidade de boletins o desenrolar das discussões e propostas partidárias, sobre os diversos temas que me preocupam. Acho que os partidos e seus apêndices legislativos e organizativos da sociedade civil são espaços de acumulação teórica que deveriam cumprir funções de interesse público, além dos períodos eleitorais, quando entram em ebulição propagandística ativando a rede completa de acumulação capitalista do pais através das empresas de marketing e propaganda e toda a cadeia comercial gráfica, TV, etc. Não vejo futuro nenhum no partido na construção política nos próximos anos, nos novos cenários de acumulação de poder das massas famintas e desempregadas e até da sempre omissa classe média, o fiel da balança na hora do limite do protesto, na hora da repressão governamental colocando os panos frios nas rebeliões em conluio com seus representantes políticos e o seu guardiães fardados. Os projetos de liberação nacional, se ainda assim podem ser chamados no continente, não creio que passem mais pelo partido, com todo respeito ao camarada Lenin e a sua época. Novos espaços políticos e não novos clubes de amigos, como parecem ser hoje a maioria os partidos, atuando em função apenas de alianças de amizades pessoais, deverão ser construídos. O mundo mudou, mas não pela eleição de Obama. O mundo jamais vai mudar através de eleições milionárias. O mundo mudou porque novos movimentos sócias entraram em cena, explosivos, irreverentes, fora da programação eleitoral proposta pelos governos, e condizentes com um mundo cansado de um sistema que a cada longos 4, 5 ou 6 anos renova suas bancadas para continuar espoliando o planeta, oferecendo leis e decretos para utilização à vontade dos recursos naturais. O mundo mudou porque o precipício ficou a milímetros da próxima ação predatória das transnacionais, braço da penetração imperialista do mundo desenvolvido e os seus lacaios adormecendo os cidadãos nas rédeas da organização política tradicional.
E é com esses movimentos sociais em construção de um mundo em mutação, e que ainda terão que se desprender dos vícios autoritários que ainda reproduzem esquemas partidários no seu interior, que o mundo pode retomar o rumo de dignidade que alguma vez foi tentado na A.L. pela última das opções: a das armas revolucionárias.
E sobre os laranjas, acho normal sua existência e produto do âmbito parlamentar, onde prima o nepotismo, os conluios entre legendas partidárias, os favores para aceder a cargos, a superpopulação da máquina e dos gabinetes, o dispêndio fabuloso e diário em papel, gasolina, comida, tecnologia, altíssimos e indecentes salários, (para mim a atividade parlamentar – num Parlamento diferente e popular, é claro -deveria ser ad honorem mantendo apenas os salários das suas profissões de origem com uma equipe mínima de um ou dois assessores, igualmente ad honorem) pouquíssima produção intelectual, militante e/ou de transformação política, fora dos interesses da manutenção do poder, e muito tempo laboral jogado na lata do lixo. Pessoas de alta qualidade humana participando desse mundo que “pensam modificar por dentro”. Enquanto pensam isso, a máquina os devora com e comodidades, destruindo o que ainda resta neles de espírito combativo. Vejam–se as queixas que o Che fazia no seu Gabinete quando ministro aos seus colegas e sobre seu trabalho voluntário aos domingos nos canaviais.
Mas tudo isto é o normal e vox populi, não estou descobrindo a pólvora, apenas a estou utilizando para lembrar deste absurdo com o qual convivemos. Para isso existe, para conter o protesto social, o Parlamento burguês.

21/05/2009

"Essa coisa de 'laranja' é o que todos os deputados fazem, sem exceção."

CAZZO ENTREVISTA A “LARANJA”.

Não foi preciso espremer muito para dar um suco. O primeiro contato com a “Laranja” foi um tanto apreensivo de ambas as partes, levando-me a crer que não obteria as informações precisas, que haveria pensada resistência. Ledo e grato engano. Muito solícita, a “Laranja” ofereceu-me sem pudores detalhes até onde lhe cabiam dessa prática quase regulamentada na casa do povo, a Assembléia Legislativa da Bahia.


Nas poucas vezes que plantei verde para colher maduro, sofri frustração. Não por esperteza dela, apenas porque contei nitidamente com sua total e lamentável ignorância sobre determinados assuntos e, acreditem, uma desabusada ingenuidade.


Mas não se enganem: não retratei seu rosto por precaução e cuidado de minha parte. Dela, veio a precaução de manter sigilo quanto a seu nome e o nome do parlamentar. Mas, ainda assim, por ela, não fosse tão cedo, não fosse a noite de pouco sono – noite bem dormida, talvez –, não fossem as olheiras, inconseqüente, haveriam fotos de seu rosto nesta entrevista.




Cazzo – Tem muito tempo que você é “laranja”?



Laranja – Não, não. Deve ter um ano só. Eu nunca tinha entendido direito esse negócio de “laranja”...



Cazzo – E agora você entende?



Laranja – É... entendo. O “laranja” é, na verdade, uma forma de o parlamentar complementar o orçamento pra ajudar nos custos do mandato.



Cazzo – Quem lhe deu essa explicação?



Laranja – Alguns assessores do deputado.



Cazzo – Como você foi convidada para ser “laranja”? Quem conversou com você primeiro?



Laranja – Ah, isso foi o próprio deputado. Ele que me convidou. Depois disse que os assessores me explicariam o que eu deveria fazer, a questão do procedimento, dos documentos, sabe?



Cazzo – Então, me fala aí, passo a passo, como foi que você se tornou “laranja”.



Laranja – Depois que eles me explicaram o que eu tinha que fazer, eu dei meu nome completo e RG. Uns três dias depois meu nome foi publicado no Diário Oficial e a partir daí eu já podia ser nomeada. Então, eu fui até o RH de lá da Assembléia, com todos os documentos, e fui nomeada Secretária Parlamentar.



Cazzo – E o repasse acontece de que maneira?



Laranja – Então, depois que eu fiz tudo lá no RH, eu fui no banco que fica lá mesmo pra abrir uma conta. Quando chegou o cartão eu avisei pra o pessoal do gabinete. Eles me orientaram para que sempre no fim do mês eu vá até a agência e retire o dinheiro todo.



Cazzo – E você recebe algo pra fazer isso? Você tira alguma “ponta”?



Laranja – Que nada. Tiro nada não. É que pouco antes de eu ser nomeada eles tinham uma pessoa que ficava com os cartões dos “laranjas” e essa mesma pessoa retirava o dinheiro no caixa eletrônico.



Cazzo – E por que não trabalham mais com essa pessoa?



Laranja – Eu soube que foi por dois motivos: um porque ficava muito suspeito uma pessoa com um bocado de cartão na mão. E, além disso, porque essa pessoa só podia tirar de cada conta o valor de limite do dia e isso atrasava um pouco de o dinheiro chegar ao deputado pra o pagamento das coisas lá do mandato.



Cazzo – Esse deputado possui quantos “laranjas” além de você?



Laranja – No dia que eu fui nomeada tinham mais quatro pessoas de lá. Mas parece que tem mais gente sim, que veio antes, né? Isso o deputado nunca me falou não, essa coisa da quantidade de pessoas que ajudam ele...



Cazzo – Como você conheceu o deputado? Você é militante? É do partido?



Laranja – Não, não, nada disso. É assim... como que eu falo... eu tenho um caso mal resolvido com ele, sabe? Já tem uns três anos isso. Eu moro em Camaçari, e na época eu tava acabando a faculdade e ele foi padrinho de nossa turma. Ele foi lá pra conversar com a gente e começou a me paquerar na frente de todo mundo mesmo. No outro dia, ele já tava me ligando no outro dia, tinha conseguido meu número com a comissão organizadora da formatura. Foi assim que começamos o envolvimento.



Cazzo – Vocês ainda se relacionam?



Laranja – Sim. Mas não tem futuro, não. Ele é muito mulherengo, muito safado, eu já desencanei. Tô só passando uma chuva mesmo. Eu quero me casar, mas com ele não rola, não.



Cazzo – Você sabe que a prática de “laranja” é ilegal, não sabe? Você não se sente corrupta por isso? Não o considera corrupto por isso?



Laranja – Não. Assim, claro que não deixa de ser errado meio que contribuir com isso, mas o deputado não é de esbanjar, por exemplo, o carro dele é bem comum, ele não possui grandes patrimônios, não tem fazendas, empresas, essas coisas que ele bem podia ter, mas não tem, eu te garanto. Comparando com uns tantos aí, ele rouba pouco, na verdade, não dá nem pra dizer que o que ele faz é roubo porque essa coisa de “laranja” é o que todos os deputados fazem, sem exceção.



Cazzo – E por que todos fazem você acha normal que ele também faça?



Laranja – Não é isso. Repare, isso é uma coisa que não muda assim de uma hora pra outra, ele precisa desse dinheiro porque senão as coisas não andam, coisas que são muitas vezes benefícios pra um monte de gente. A questão é o modo de usar essa grana, entende?



Cazzo – E como você sabe que todos fazem? Como você sabe que os outros roubam mais do que ele, ou como você diz, que os outros usam o dinheiro de um modo menos compensatório?



Laranja – Isso é engraçado. Sempre que eu vou lá no banco no período de pagamento, quando eu tô mofando lá na fila, eu converso com algumas pessoas que são “laranja” também, sabe? E é nessas conversas que fico sabendo um monte de coisa...



Cazzo – Conta algumas aí.



Laranja – Ah, tipo... tem um deputado que só contrata mulher pro gabinete dele, mas o negócio de “laranja” dele é um pouco diferente. As meninas são universitárias e ele contrata elas como estagiárias, mas nomeia elas normalmente, como secretárias parlamentares. O acerto é que no dia de pagamento elas tiram o dinheiro todo e ficam com o valor equivalente a estagiário, coisa de R$ 600,00 e repasse o restante todo pra o deputado. Dizem que tem outros deputados que contratam “laranjas” e deixam às vezes coisa de um salário mínimo pra pessoa. Pra quem não ta trabalhando já é alguma coisa, né?



Cazzo – É. Mas quanto às estagiárias, elas trabalham o equivalente a estagiárias? Ficam lá por meio-turno?



Laranja – Não. Trabalham o dia todo e ainda nos fins de semana quando tem trabalho no interior. Alguns deputados compensam o “laranja” deixando que use o plano de saúde de lá.



Cazzo – Você usa esse plano de saúde?



Laranja – Não. O deputado até me ofereceu, mas eu já tenho o meu há mais tempo, não ia precisar mudar.



Cazzo – Onde você trabalha?



Laranja – Eu sou fisioterapeuta. Trabalho num hospital lá em Camaçari.



Cazzo – Foi o deputado que conseguiu esse trabalho pra você?



Laranja – Mais ou menos. Pra essas coisas ele é meio lento. É tímido. Ele tinha aproximação com o pessoal da área de saúde na época, acho que tem aproximação até hoje. Ele conversou lá com o diretor do hospital, mas só foi porque eu insisti muito, ele sempre me enrolava. Eu sei que só depois de uns três meses enchendo ele foi que consegui uma vaga lá nos hospital.



Cazzo – Quer dizer, se eu te procurar lá no gabinete dele, eu não te acho?



Laranja – Só no dia do pagamento, e eu nem demoro lá. Pego o dinheiro no banco e entrego à secretária dele. Eu tinha até sugerido fazer transferência direta pra conta dele, mas ele disse que é perigoso, podiam descobrir, podia vazar, sei lá.



Cazzo – Você não acha que há uma contradição entre o discurso dos políticos e essa conduta que eles adotam, a contratação de “laranjas”?



Laranja – É como eu já te falei, todos eles fazem isso, mas ele usa o dinheiro pra segurar o mandato dele, não dá pra ser todo certinho nesse negócio de política, eu até disse a ele pra sair disso, mas não adianta, ele gosta. E é coisa que não tem jeito mesmo, ele mesmo me disse que se ele não fizer isso, se ele for querer ser mais correto que os outros, ele não se reelege, entende? É todo um trabalho que vai por água abaixo.



Cazzo – Mas todos os benefícios que eles recebem não são suficientes?



Laranja – É a forma como usam o dinheiro. Pra os que usam esse dinheiro de forma correta, talvez os benefícios que você tá falando não sejam realmente suficientes.



Cazzo – E o partido dele então sabe dessa conduta? O partido compartilha disso?



Laranja – Ah, isso não sei dizer. Não sei mesmo. Nunca fui lá, nem sei onde fica. Só conheço de nome mesmo, de ouvir falar. Sobre essas coisas a gente nunca conversou.



Cazzo – Então você, de fato, sendo “laranja”, considera-se uma contribuinte do mandato do deputado?



Laranja – Sim. Não vejo essa gravidade toda nisso. Claro que se ele passar a esbanjar com esse dinheiro, a gastar, fazer festa, eu peço pra sair.



Cazzo – E quem lhe garante que ele não esbanja?



Laranja – Eu vejo. Claro que eu não estou sempre com ele, mas eu já fui num dos apartamentos dele e é bem simples, não tem muito luxo, não.



Cazzo – Você já votou nele?



Laranja – Não. Também porque quando a gente se conheceu já tinha passado a eleição. Mas na próxima eu voto nele.



Cazzo – Você conhece o trabalho dele? Algum projeto? Conhece o histórico dele?



LaranjaEu não tenho muita paciência pra essas coisas de política, não. Eu nunca entendo nada. De vez em quando ele dá uns surtos de falar de política, mas é mesmo que nada, eu não entendo mesmo.



Cazzo – Você não tem medo de que descubram?



Laranja – Quem descubra?



Cazzo – A mídia, por exemplo.



Laranja – Nem sei. Se tiver problema, vai ter problema pra um monte de gente, pra os deputados, pra governador, não sei.



Cazzo – Você conhece a origem do termo “laranja”?



Laranja – Eu não.



Cazzo – Nem eu.