Lisiane, magra, desvia da chuva e anda cansada de tanto desviar de lixo, coisa comum em nossas ruas. Mãos na massa, funda o Instituto RAM [Instituto de Reeducação Ambiental], ONG que vem dando seus primeiros passos, como uma tentativa concreta [concretista, segundo a mesma se define] de mudar a realidade, seja na terra [haja lixo], seja no mato, seja no mar.
Das mais entusiasmadas divulgadoras do Clean Up Day, que será realizado cá por essas bandas, do lado de lá do Porto da Barra, dia 19, a partir das 8h, Lisiane nesse dia fará apenas o que faz sempre que tenta passear por nossas praias: sem sossego, cata o lixo da areia, tira o lixo do mar.
Tocada desde menina, ainda em Santo Estevão, Lisiane entoa essa toada, além de rocks e canções de amor, e luta na sua incansável busca de tornar o meio ambiente um lugar mais decente de se viver.
Lisiane – Desde muito nova, eu me lembro... a minha infância, lá em Santo Estevão, eu ficava mexendo no jardim de casa, procurando bichinho, subindo em árvore, sei lá, se esse negócio de reencarnação existe acho que vem de antes, porque, é sério, eu tenho essa afinidade por natureza desde que eu me entendo por gente. Eu assistia assiduamente o Globo Ecologia...
Cazzo – É mesmo? Eu detesto aquilo...
Lisiane – É, mas eu adorava. Inclusive um tio meu viu uma filmagem minha fazendo um programa de meio ambiente, eu devia ter, sei lá, uns 11 anos de idade...
Cazzo – Hahahahaha...
Lisiane – Ele é falecido já, mas deu muita risada, e era meu fã...
Cazzo – E com o tempo, como foi? Você foi se aproximando de alguma entidade, de alguns movimentos ambientalistas?
Lisiane – Eu morei em Santo Estevão até os 14 anos, vim pra Salvador e comecei a me interessar e realmente me envolver com isso, com o meio ambiente de uma forma mais forte, intensa. Procurei algumas organizações pra ser voluntária, cheguei a ser voluntária do Grupo Ambientalista da Bahia, o GAMBÁ, por um ano, por aí, depois o GREENPEACE, mais recente, na verdade, em 2006, quando navio deles veio pra cá... só que, no fim das contas, eu queria fazer coisas que fossem além do que um voluntário pode fazer, porque o papel do voluntário é apoiar coisas que já existem e, no máximo, sugerir aquilo que nem sempre acaba sendo realizado. Então, comecei a pensar em ter uma Organização, fundar uma Organização, daí que vem o RAM – Instituto de Reeducação Ambiental, que vem com a proposta de mudar atitudes em prol do meio ambiente, porque eu vi que não havia nenhuma campanha que fosse suficientemente forte que conseguisse mudar as cabeças das pessoas, fazê-las enxergar que o planeta tem que ser cuidado por todo mundo.
Cazzo – Voltando um pouco: em casa, na infância, como era essa coisa meio Serguei... trepando com as árvores...
Lisiane – Hahahahahahahahahahahaha...
Cazzo – Não, na verdade, você trepa nas árvores, né?
Lisiane – Nas árvores, não com as árvores...
Cazzo – Você sabe que o Serguei trepa com as árvores, né?
Lisiane – Hahahahahahaha... o Serguei é louco... hahahahahahahahahaha...
Cazzo – Como era em casa, sua mãe, seu pai?
Lisiane – É engraçado, porque meu pai foi uma das minhas inspirações, porém ele é uma pessoa que os ambientalistas considerariam como sendo do “lado negro da força”. Porque ele tem fazenda, cria gado, e eu sou vegetariana... assim, vou muito pra o outro lado, mas ao mesmo tempo esse contato com os bichos veio muito dele, tomar leite da vaca de manhã cedo, acordava 5 da manhã, ele me levava pra o curral, pra tomar leite ali na hora, ele achava uns sapinhos, que a gente chamava de caçote, q eram mini-sapinhos, que ele me dava na mão, montar a cavalo que eu monto desde sempre, então eu acabei criando uma relação muito próxima com os bichos por causa de meu pai.
Cazzo – Mas, e quando você começou a partir pra o lado mais extremo da força, como é que foi?
Lisiane – Minha mãe se preocupa mais, ela tem
pavor a água e eu sou louca por mergulho, adoro mergulhar. Ela sempre viu o GREENPEACE como sendo aqueles extremistas que salvam baleia no meio do oceano, essas coisas todas, e ela acha que eu vou acabar fazendo isso. Não que eu não tenha tentado, quando o navio deles veio, mas não deu... mas, assim, eu largaria tudo, a qualquer momento, pra fazer esse tipo de atividade porque é o que eu gosto, acredito nisso, nos resultados.Cazzo – Quanto a questão da sujeira, eu acho Salvador uma cidade fantástica, tem uma coisa que eu pergunto sempre a quem vem de fora – e nem precisa ser muito de fora assim, pode ser no quintal da gente aqui, em Sergipe – é o seguinte: “lá em sua cidade o poste é cesta de lixo?” Porque aqui é impressionante, o poste é cesta de lixo e a gente acha normal. Eu queria saber de você que medidas drásticas deveriam ser tomadas? Como você vê a questão da sujeira em Salvador?
Lisiane – É impressionante, porque eu já conheci várias capitais do Brasil e Salvador, infelizmente – digo isso com muito pesar –, é a cidade mais suja que já conheci na minha vida. Adoro Salvador, adoro o povo daqui, só que é triste demais, é muito suja, muito mal cuidada. Eu acredito muito na reeducação ambiental (não é à toa que eu abracei a causa), acho que deveria haver campanha, mas não só campanha porque não adianta nada se não temos quantidade suficiente de lixeiras nas ruas. Mas acho que podemos incentivar as pessoas a reciclarem o lixo, a reciclagem simples mesmo, coleta simples em casa. Só que vamos para o outro lado: tem coleta seletiva em Salvador inteira? Não tem.
Cazzo – Mas e que medidas deveriam ser tomadas?
Lisiane – Então, acho que deveria haver uma campanha partindo do Governo mesmo, pra sensibilizar as pessoas a mudarem o hábito, mas, ao mesmo tempo existir uma logística de coleta muito melhor.
Cazzo – Você acha que o Estado é capaz de ter esse compromisso ou isso tem de partir da sociedade civil?
Lisiane – Os dois lados devem estar intimamente ligados. É um problema de saúde pública, inclusive. Mas acredito na força do Estado no sentido de que eles detém um poder financeiro que é maior do que o de qualquer organização. Claro que nós, do RAM, podemos fazer um trabalho de conscientização, sim, mas não temos verba para uma campanha extensa, com TV e outros meios de comunicação. isso o governo poderia fazer tranquilamente, até porque tem uma verba específica, que vai para a publicidade. Acho que as pessoas iriam aprovar campanhas positivas como “Não jogue lixo na rua ou pela janela do ônibus”.
"Se eu sempre protegia os animais, e isso vem desde pequena, como que eu podia aceitar que se matasse um bicho para a minha alimentação? Então, quando eu percebi isso, vi que eu estava errada, eu tava sendo hipócrita."Cazzo – Eu ia falar disso agora...
Lisiane – Mas é uma mania, é comum, é impressionante...
Cazzo – Você reage quando vê isso?
Lisiane – Eu reajo. Outro dia, no ônibus, uma menina tava abrindo um pacote de jujuba e a parte maior do plástico ela jogou pela janela, só que o vento trouxe de volta e ela foi pra jogar de novo. Daí eu peguei primeiro e falei: “Pode deixar que seguro, pra levar lá fora, pra jogar numa lixeira.” Algo como “Se toque”. Depois disso, ela começou a juntar os pedacinhos de plástico na mão...
Cazzo – A pessoa fica constrangida, né?
Lisiane – Fica constrangida. E é o que eu falo sempre nas palestras, que quando vir isso acontecendo, alguém pega uma lata e joga no chão, cata a lata, entrega à pessoa e diz: “Olha, você deixou cair.” Não tem coisa pra deixar a pessoa mais constrangida. As pessoas sabem que é errado, mas é preciso lembrar a elas.

Cazzo – Mas voltando ao papel do Estado, com todos esses avisos de ambientalistas, cientistas etc, você vê os Estados Nacionais comprometidos com a sobrevivência do planeta?
Lisiane – É uma questão de sobrevivência. No final do ano haverá uma convenção chamada Cop15, em Conpenhage, onde representantes de diversos países estarão buscando soluções mais drásticas contra os efeitos do aquecimento global, na busca de soluções mais viáveis e mais urgentes. Porque o derretimento do gelo das calotas polares que esperávamos que se intensificassem lá pra 2040, 2050, já está previsto pra 2012. Em 2007, o gelo que derreteu foi equivalente ao que derreteu em 6 anos anteriores. Uma aceleração que não era prevista. E isso vai afetar cidades litorâneas principalmente. Há muito tempo não é mais conversa de ambientalista, que, aliás, é uma expressão que eu não gosto muito.
Cazzo – Por que?
Lisiane – Eu tenho texto em que falo sobre isso, porque eu acho que todo “ista” é também “burrista” [hahahahahaha], aí eu falo que no máximo eu era “sonhista” e agora sou “concretista”.
Cazzo – É porque restringe, não é?
Lisiane – Restringe, as pessoas são tachadas...
Cazzo – Porque quando se diz que tal sujeito é ambientalista dá a impressão de que a responsabilidade sobre as coisas do meio ambiente está toda nas mãos dele. A diferença é que ele tem uma fundamentação maior, está ali como um agente multiplicador.
Lisiane – Eu, às vezes, sofro discriminação porque acham que ambientalistas deveriam ser só os biólogos ou pessoas desta área. Eu sou publicitária. Mas o trabalho do RAM é com campanhas voltadas à comunicação, uma sensibilização que venha pela comunicação. mas não creio mesmo que a fundamentação esteja apenas nas mãos de biólogos e gestores ambientais. É um papel de todos, que deveria ser abraçado por todos.
Cazzo – Ma essa mudança de hábito pode fazer com que haja uma mudança no sistema econômico. Você acha que essa mudança de hábito pode causar nova distribuição de renda? Você acha que isso pode ser um agente transformador para uma justiça social?
Lisiane – Acaba sendo porque assim que se geram, por exemplo, cooperativas de reciclagem, criou-se um outro mercado de trabalho, o TNT [tecido não-tecido]... acaba dando mais oportunidade sim. Fora que tem a questão empresarial que é vender a imagem de uma empresa ecologicamente correta.
Cazzo – Pra que se preserve a vida é preciso negar o capitalismo?
Lisiane – Eu não acredito muito nisso. Não vejo a possibilidade de deixar o capitalismo de lado. Não acredito em socialismo. Acredito em uma distribuição mais justa. Porque ninguém vai abrir mão do que tem por conta de nada... a gente tenta mudar coisas pequenas e não consegue, imagina se as pessoas vão deixar de ganhar a quantia que elas ganham...
Cazzo – Mas com isso sua ação se torna restrita porque um trabalho que poderia ser mais amplo é emperrado por conta da força que tem o sistema capitalista. Você não acha que seu trabalho acaba se tornando um paliativo apenas?
Lisiane – Até pode ser. Olhando por esse lado, poder ser. Mas acredito que podemos conseguir um equilíbrio em relação a isso. Não se produz a quantidade de carne que se consome. Muitos alimentos são descartáveis no fim das contas. O que é danoso é esse excesso. Eu não condeno quem come carne, até porque eu já comi um dia.
Cazzo – Até que idade você comeu carne?
Lisiane – Até os 18. Hoje eu tenho 31.
Cazzo – Mas você não come carne por respeito aos animais, por não achar justo comer um outro animal ou por causa da forma como o animal é tratado?
Lisiane – As duas coisas. É uma coisa agressiva matar um peixe por asfixia, matar um boi, um porco, eles sentem, eles tem reação, o que denota que eles tem emoção. Eu acredito que os animais sentem tanta dor quanto nós.
Cazzo – Você quando vai no mercado você fica olhando do que foram feitos os produtos? Se se utilizou algum animal pra fazer? Coisas assim...
Lisiane – Eu olho tudo, sempre que vou no mercado demoro e nisso eu sou a mala da casa mesmo. Mas eu olho tudo, dia desses eu achei um shampoo que é biodegradável e eu fiquei super feliz. Eu to lavando o cabelo agora com um shampoo infantil, que é biodegradável, eu achei o máximo... é o AquaKids.
Cazzo – É mesmo? Hahahaahahahaha...
Lisiane – Hahahahahahahahahaha...
Cazzo – Me diz uma coisa: você vê alguma falha na postura do GREENPEACE?
Lisiane – Ai, meu Deus, vão me banir... hahahahaha...
Cazzo – Abra o jogo. Largue o doce.
Lisiane – O GREENPEACE tem um nome e uma força de convencimento que talvez nenhuma outra organização que cuida do meio ambiente tenha no mundo. Acho só que deveriam tratar mais fortemente da questão da reeducação ambiental, da postura e não apenas o alarde, chamar a atenção para os problemas. A campanha de transgênicos e a dos oceanos são muito boas no sentido de educar, mostrar o que pode ser feito.
Cazzo – Como é que tá o andamento do Instituto RAM? O que já tem de concreto? Os planejamentos...
Lisiane – Já estão existindo coisas, projetos que precisam ser moldados pra serem apresentados, várias idéias viáveis e baratas pra serem colocadas em prática, a questão do lixo, o tráfico de animais silvestres que é uma coisa grave e o ambiente marinho.
Cazzo – Mas a tendência é ter um caráter extremista, causando impacto ou tende a ser um trabalho mais tranqüilo através da educação?
Lisiane – A idéia é trabalhar das duas formas, porque tem coisas que é preciso causar um impacto pra que se gere conhecimento, informação e fazer com que haja discussão a partir disso. Mas não só isso. Acredito em palestras, o contato olho no olho, porque é uma oportunidade de as pessoas dizerem que fazem coisas erradas ecologicamente falando.
Cazzo – A idéia de se criar esse Instituto foi por você ter visto falhas no procedimento de outras entidades?
Lisiane – É sim. Sempre achei que algumas organizações poderiam fazer mais do que já fazem, talvez com custo mais baixo. Vejo que se gasta muito dinheiro em algumas ações, mas nem sempre se vê os resultados que se espera. Então tem as palestras, que tem custo quase zero e se atingem 50 a 200 pessoas e se vê de perto a resposta delas.
Cazzo – Você ainda acredita que as crianças são a esperança do mundo?
Lisiane – Acredito sim. Nas palestras, várias crianças já vieram me falar que recriminam atitudes que os pais delas tomam... elas dizem que falam pra eles que eles estão errando, as crianças tem uma sensibilidade que adultos não tem e é vergonhoso pra um pai ser chamado à atenção pelo filho.
Cazzo – E tem gente te ajudando no RAM.
Lisiane – Tem sim. Tem gente aqui na Bahia, em São Paulo, no Rio, no Espírito Santo.
Cazzo – Mas seu principal meio de divulgação é a internet, né?
Lisiane – Ah, claro, é fundamental, imprescindível. Totalmente necessário. Minha mãe pega no meu pé, porque eu acesso muito, mas é a forma mais fácil, eu consegui agora o apoio de Edu Falaschi, vocalista do Angra, pra apoiar a causa, ele vem pra fazer um vídeo e tirar umas fotos pra uma campanha do RAM e o contato foi todo feito na internet. Apesar de conhecê-lo pessoalmente, o contato foi todo pela internet. Tem um cara de São Paulo que tá fazendo umas expedições de barco, sozinho, pra divulgar a Carta da Terra. Eu consigo multiplicar o alcance que o RAM poderia ter se tivesse uma sede fechada pra ganhar o mundo através da internet. Muita gente engatilhada em Portugal, França. Aqui no Brasil, na Bahia, São Paulo, Rio e Minas.
Cazzo – Me fala do Clean up Day.
Lisiane – O Clean Up Day surgiu nos Estados Unidos e hoje envolve mais de 100 países. Mas, assim, eu me sinto feliz em estar ali fazendo palestra pra 200 pessoas, explicando o que o lixo que elas deixam na praia provoca, mas, ao mesmo tempo, eu gostaria que não existisse, que não fosse necessário um dia mundial de limpeza da praia, um dia da árvore, do meio ambiente. Seria interessante que não existisse isso, seria interessante que as pessoas simplesmente pensassem antes de fazer as coisas. Como ainda não é assim, surgiu o Clean Up Day, que é o dia mundial de limpeza de praia.
Cazzo – Qual a entidade que cuida disso? Que criou esse dia?
Lisiane - The Ocean Conservancy, dos Estados Unidos. Lá existe uma costa de lixo que fica no mar, quase duas vezes a área do país... que é lixo do mundo inteiro.
Cazzo – Mas o daqui vai rolar onde?
Lisiane – Aqui no Porto da Barra.
Cazzo – Quais são suas referências nessa luta?
Lisiane – Eu curto pessoas apaixonadas, eu gosto de pessoas que abraçam a causa por paixão, qualquer causa que seja positiva. No GREENPEACE tem a Leandra Gonçalves, que acho fantástica, ela vai atrás, é uma referência, tem o Marcelo Rocha, que é presidente do SOS FAUNA, que é um cara fantástico e que tem uma luta muito grande, complicada, voltada à proteção dos animais... citar nome é muito complicado...
Cazzo – E referência de leitura?
Lisiane – Meu preferido é “Antes que a natureza morra”, do Jean Dorst, principalmente por ele ter sido escrito em 1956, publicado em 1956. O cara estudou o mundo inteiro, tem detalhes de todas as regiões e tem a idéia de mudança desde essa época, de mudança de atitude, de pessoas e governos, mas é um livro muito difícil de achar...
Cazzo – Você tem esse livro?
Lisiane – Eu ganhei de presente do meu ex... hahahaahaha...
Cazzo – Do Richard?
Lisiane – Hahahahahaha... botar o nome dele na entrevista é muito desaforo... hahahahaha...
Cazzo – Por que?
Lisiane – Ah, é dar cartaz! Hahahahaha... a ex a gente não pode dar cartaz... mas a gente é amigo, ele me deu esse livro, ele atravessou São Paulo pra me dar o único exemplar que ele encontrou naquela época, tava apaixonado, né?
Cazzo – Pronto. O homem perfeito.
Lisiane – Hahahahaha... Não é à toa que 3 meses depois eu fui embora, né? Larguei a minha Bahia, né?
Cazzo – Num sentido amplo, global, qual você acha que tinha de ser a atitude mais emergente que a gente deveria tomar pra evitar que o mundo acabe de forma tão acelerada?
Lisiane – Poxa... difícil... é muita coisa. Acho que é a água. Mas tem muita coisa, lixo é uma coisa absurda também...
Cazzo – Você acompanha algo do trabalho do Partido Verde? Você acha que ele se perdeu um pouco dentro da vida política ou você ainda vê algum valor ali?
Lisiane – Acho que a política tá toda muito perdida, não existe mais nenhum partido assim... não vejo nenhum partido manter a ideologia que mantinha quando foi fundado. O Partido Verde vai nessa linha, existem pessoas que estão lá ainda porque acreditam, que acham que podem mudar o meio ambiente através do trabalho político, mas acho que tá perdido sim. Muitos amigos acabaram saindo de lá por conta disso, por estarem insatisfeitos.
Lisiane – Não faço aqui campanha pra Marina Silva. Mas sei que se você tem um projeto e as pessoas que estão ao redor não abraçam, é muito complicado levar adiante. Não sei exatamente o que houve, mas sabemos que o Minc é muito mais político, né? Ele conseguiu fazer coisas em pouco tempo, mas é questionável algumas posturas dele, abrir mão de algumas coisas que Marina não abriria, porque ela abraça a causa.
Cazzo – Já se especula que ela seja a candidata a presidente pelo PV. Você vai abraçar essa causa também? Hahahahaha...
Lisiane – Eu prefiro não misturar logo as coisas, eu gosto de pensar muito antes de votar. Preciso conhecer a fundo as propostas, as alianças, quem estará na equipe... não voto à toa, de jeito nenhum.
Cazzo – Você não é dessas que prefere bicho do que gente, não, né?
Lisiane – Não. Eu gosto dos dois lados, mas é que às vezes a gente se revolta com o que vê, a gente desgosta, desacredita por conta da atitude que as pessoas têm, às vezes ela sabe que a atitude é danosa mas mesmo assim preferem fazer aquilo. Então dá uma desesperança, um desânimo. Mas eu gosto das pessoas sim. E gosto tanto que estou trabalhando em prol de um meio ambiente melhor.
Cazzo – Venha cá, Lisiane, quando você vê uma barata, você mata ou deixa ela viver?
Lisiane – Caralho, velho, eu tenho pavor a barata. Eu acho que barata foi um erro de Deus. Pra servir de alimento às aves existem vários outros bichinhos menos nojentos, como os besouros.
Cazzo – Mas, confesse: você mata barata?
Lisiane – Eu tenho nojo, cara. Eu dialogo com ela, eu digo: “Fica aí.” Aí vou chamar alguém pra matar, mas eu não tenho coragem.
Cazzo – Ah, você é cúmplice, então.
Lisiane – É, sou cúmplice. Sempre.
Cazzo – Ah, você é igual a ACM, então, ele não matava, mandava matar.
Lisiane – Hahahahahahahahaha... que comparação!!! Hahahahahaha...
Cazzo – Não é, não? Hahahahahahahahaha...
Cazzo – O mosquito te mordeu aí e você ficou passiva. Você não tem desprezo por esses bichos que querem fuder a gente, não?
Lisiane – Hahahahahaahaha...
Cazzo – Eu acho uma escrotidão. Eu detesto muriçoca.
Lisiane – Ah, eu mato muriçoca também. Acontece, às vezes. Muriçoca, barata e carrapato, acho que o mundo poderia passar sem eles.
Cazzo – Sua relação com Deus? Você é igual ao Alberto Caeiro: “Deus é as flores e as árvores...”?
Lisiane – Adoro o Fernando Pessoa, principalmente o Alberto Caeiro. Meu poema preferido é o “Num meio-dia de fim de primavera”. Eu nos vejo como uma extensão de Deus. Tem um livro, que se chama “Conversando com Deus”, que diz que somos a experimentação de Deus, digamos, Deus é uma energia e é através de você que Ele experimenta a vida. Partindo desse princípio, acredito que temos uma responsabilidade absurda no fazer, no construir as coisas. Ele fala também no livro que Deus é amor. E o que é isso? É aquilo que constrói, que nos impulsiona, que não deixa a gente ficar parado, eu vejo por esse lado.
Cazzo – Mesmo que a carreira de cantora deslanche, a gente não vai perder Lisiane ativista, não, né? Você me parece mesmo multifuncional...
Lisiane – Hahahahahahaha... pelo contrário, acho que toda pessoa que é geradora de opinião, ela tem obrigação de abraçar uma causa, uma que seja. Se você tem uma exposição privilegiada, se tem esse carisma, essa empatia, é obrigação abraçar uma causa. Claro que se eu conseguir ficar famosíssima... hahahahahaha... a causa estará cada vez mais à frente.









mas a verdadeira relação começou em casa com meu pai músico de cinema, teatro e TV, roteirista e tal e minha mãe artista plástica, fotógrafa, que me passaram todo seu arsenal artístico e vendo muitos filmes desde criança no programa “Hollywood em castelhano” na TV preto e branco, quase todo o cinema argentino e mexicano em programas específicos e indo no cinema – e no teatro - com eles. Não tive “opção”. Um detalhe, se isto pudera interessar a alguém ainda hoje, em tempos de internet: 








